E posso dizer que não sei. Até hoje, não descobri o que me fez continuar. Continuar sentindo, lá no fundo, que não, aquilo não foi somente uma passagem. Me entende? Não foi ali que parou. Algo insiste em me fazer pensar que tem mais. E essa voz, tão misteriosa, continua soprando vagarosamente no meu mais recôndito intelecto: ''ainda tem mais''. E tem mesmo. Só não sei o quê e quando. Só sei que jamais consegui guardar um olhar por tanto tempo. E continua intacto. No mesmo lugar. Com a mesma acidez. E ausência. E me acostumei. Não com a ausência, com a acidez. E comecei a acreditar em coisas que antes eu não via valor. É, sei que é clichê falar isso. Mas, aí vai: eu tenho certeza que te vi antes. E ter essa certeza me faz rir de tanto medo. Em outras vidas? Vai saber. Acredito em tudo, até que me provem o contrário. E não sei por onde anda, e pode ser ilusão sim, daquelas purinhas. Mas sempre que eu fujo, a assombração chamada ''você'' me faz retornar. Retornar à pensar, acreditar tão-somente. E lembrar, daquele mesmo olhar, o único, sempre e todas as noites antes de descansar. Mas esquecer... acho impossível. Posso seguir qualquer outro caminho, posso ir pra qualquer lugar, posso conhecer quaisquer outras pessoas, mas apagar você... Eu poderia ter ido para outro lugar aquele dia. Mas não fui. Poderia não ter esbarrado com você, ocasionalmente aquele dia, mas não foi assim. Poderia ter acontecido em outra época, em outro lugar, com outra pessoa. Mas foi exatamente naquele momento, naquele local e com você. E o que aconteceu? Nada. Mas esse ''nada'' deixou tuas reticências cravadas em mim. Acreditando que voltará, voltarei, voltaremos. Da mesma forma como naquele dia. Sem querer. Sem combinar. E continuo. Mesmo que fugindo, retornando. Mesmo que duvidando, acreditando. Mesmo que não querendo, escutando: ''ainda tem mais...''
